BREVE INTRODUÇÃO HISTÓRICA AO BUDISMO TIBETANO

 

            Buda Gautama nasceu no norte da Índia no século 5º a.C., filho de um rei que o educou para ser herdeiro do trono. Com nascimento e juventude excepcionais, desde o início já era claro que Siddharta, o príncipe, estava destinado a se tornar um ser extraordinário. Os primeiros anos de sua vida foram passados em meio ao luxo palaciano, com poucas preocupações ou aflições. Além disso, Siddharta destacava-se em todas as atividades acadêmicas e esportivas da sua época.

Não demorou muito, entretanto, para que ele começasse a duvidar da valia de sua vida mundana. Fugiu do palácio e procurou uma vida mais significativa estudando com vários mestres altamente reconhecidos de filosofia e meditação. A sinceridade da sua busca era tal, que rapidamente alcançou as realizações meditativas mais elevadas que esses mestres podiam ensinar, mas, ainda assim, isto não o satisfez.

Depois de ter feito práticas ascetas árduas durante anos, descobriu que nenhum desses sistemas poderia levá-lo além dos limites da existência condicionada. Resolveu continuar sua busca sozinho e, com seus próprios esforços, finalmente atingiu a iluminação no local atualmente conhecido como Bodh Gaya.

O que descobriu era tão profundo e vasto que, a princípio, relutou em revelá-lo, temendo que ninguém compreendesse. Mais tarde, entretanto, começou a ensinar, e rapidamente atraiu um grande número de seguidores, muitos dos quais alcançaram um alto nível de realização meditativa.

A diversidade de pessoas que iam receber ensinamentos de Buda e praticavam o seu caminho exigiu uma diversidade correspondente no modo de ensinar, e indivíduos ou grupos diferentes recebiam instruções diferentes, adequadas a seus respectivos temperamentos e capacidades intelectuais.

Em geral, os ensinamentos que Buda ensinou em vida podem ser divididos em três grupos: os que finalmente foram coletados no cânon Pali e constituem a base do que agora se conhece como escola Theravãda, ou o Veículo Básico, que enfatiza a disciplina moral e a ética; os ensinamentos do Mahãyãna, ou Grande Veículo, que enfatizam a compaixão e a preocupação com os demais; e os ensinamentos tântricos do Vajrayãna ou Mantrayãna Secreto, que utiliza uma enorme variedade de métodos hábeis para suscitar uma realização profunda em um período de tempo relativamente curto. Esses ensinamentos tântricos foram dados pelo próprio Buda apenas de modo muito reduzido, porém, ele mesmo predisse que seriam disseminados neste mundo por outros seres iluminados que apareceriam. (…)

Depois da morte de Buda, as diferenças entre os vários ensinamentos que ele havia dado foram se manifestando mais rigidamente e as escolas e tradições diferentes se formaram. (…)

Durante os séculos seguintes, essas tradições diferentes foram propagadas aos poucos por toda a Índia (e além desta) até o budismo ampliar sua influência pela maior parte da Ásia Central, Oriental e Sul, chegando, inclusive, à Indonésia.

Algumas tradições se perderam por completo e outras se fundiram dando lugar a novas formas de budismo. Por volta do século 13, a chegada do islamismo e mudanças políticas na sociedade indiana deslocaram o Darma de Buda do seu lugar de origem, e foi em outros países que os ensinamentos foram preservados: O Theravãda no Sri Lanka, Burma, Tailândia e Camboja; o Mahãyãna na China, Japão, Coréia e Indochina e o Vajrayãna principalmente no Tibete. (…)

A enorme variedade de ensinamentos encontrados no budismo tibetano pode, contudo, ser resumida pelas Quatro Nobres Verdades expostas por Buda logo após ele ter atingido a iluminação.

A primeira verdade mostra que a existência condicionada nunca está livre de sofrimento, nunca é verdadeiramente satisfatória. Qualquer felicidade que venhamos a ter é somente temporária e em seu devido tempo cede lugar ao sofrimento.

A razão para isso, de acordo com a segunda verdade, é que tudo o que fazemos, dizemos ou pensamos terá um resultado que será experimentado em momento futuro, nesta vida ou em uma vida futura. Na verdade, o renascimento é o resultado das nossas ações, e as condições em que nascemos em uma vida são diretamente dependentes das ações que fizemos em vidas anteriores e, especialmente, dos motivos e atitudes com que executamos essas ações. (…) A segunda verdade nos mostra que a força motriz por trás das nossas ações são as emoções negativas tais como o ódio, o apego, o orgulho, a inveja e especialmente a ignorância, que é a raiz de todas essas emoções. Essa ignorância não é apenas falta de sabedoria no modo como agimos, mas a ignorância básica de como percebemos a existência e que nos faz estar constantemente presos pela crença na existência sólida e duradoura de um “eu” e do mundo externo que nos rodeia. Pelo fato de nossas ações serem infindáveis, não há como haver um fim para os renascimentos contínuos de existência condicionada.

Somente quando deixarmos de agir pela ignorância é que esse ciclo poderá ser interrompido, como mostra a terceira verdade, que explica a cessação do sofrimento e a libertação da existência condicionada.

A quarta verdade explica o caminho pelo qual isso pode ser atingido. Ou seja, basicamente, por um lado, a acumulação de ações positivas (…). Por outro lado, a prática de meditação pode banir diretamente a raiz da ignorância que é a causa do sofrimento. (…) somente aqueles cuja motivação é o benefício e a iluminação total de todos os seres podem atingir o estado búdico completo.

As palavras do meu professor perfeito: um guia para as preliminares da essência docoração do vasto espaço da grande perfeição – Patrul Rinpoche. Porto Alegre: Makara, 2008.

 

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